Voltar para casa



Desde criança que para mim Natal rima com imensa saudade. De cheiros caseiros, ambientes familiares, aromas ternos a aconchego e protecção do lar contra a vastidão de um mundo cheio de perigos e incertezas. 

Nos meus muitos intervalos longe de Portugal, acabei sempre por associar essa saudade a uma saudade de casa. Mas mesmo em casa a saudade apertava, achava eu que por antecipação de uma nova ausência. 

Durante anos, lágrima à espreita, repeti para mim: não tarda estás em casa. E, durante anos, achei que voltar para casa era regressar ao tecto firme, às paredes caiadas, ao soalho encerado, aos lençóis frescos, às torradas ao pequeno-almoço e à lareira ao deitar. Enganei-me.

Voltar para casa é voltar para pessoas, pela mão de memórias e afectos. Podemos voltar com uma madalena se nos chamarmos Marcel, um simples cheiro se tivermos nariz dominante, uma cor ou uma estrela no céu, uma fotografia impressa ou digital, uma carta com letra cuidada, um bilhete de metro aninhado entre duas páginas de um livro interrompido, um post-it no bolso de trás daquelas calças, um refrão, uma voz, um bordão. 

Quanto mais avanço na vida, mais provas vou tendo de que são as pessoas que guardamos em nós que revelam o que queremos guardar da vida: alegria, tristeza, tanta dor, mais e mais amor.  

São elas que, com um simples olhar ou a falta dele, nos enchem de vontade de sorrir, de chorar, de voar, de criar, de partilhar.

"O inferno são os outros" precisamente porque sem alteridade não existimos. Dependemos do outro - do seu olhar, do seu reconhecimento, do seu cheiro, do seu abraço - para sermos nós.   

É de encontros e desencontros com o outro e comigo que aqui venho falar.


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